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domingo, 12 de setembro de 2010

Opinião

SENHORA UTOPIA
O socialismo teve suas chances e falhou. Agora, dificilmente voltará a ter. Por quê?
por Fábio Congiu
Eles não têm cara de muitos amigos. Falam em greves, em igualdade e em Cuba. Não sei se persiste o medo de que realmente violem criancinhas, mas é engraçado como até hoje sentimos um desconforto quando, diante da TV, nos deparamos com aquele velho slogan ilustrado por fábricas, engrenagens e fumaça: “Salário, trabalho e terra”. Por quê?

Ora, o leitor blogueiro e tuiteiro consegue imaginar sua vida sem uma internet de qualidade (vide a reclamação que Fidel Castro fez essa semana)? Sem seus celulares, iPhones, iPods, iPads, iQualquer-outra-supertecnologia? Sem McDonald’s, Coca-Cola, Disney e todas as demais luxuosas variedades capitalistas? Provavelmente, não. Nos dias atuais, é quase impossível, e a culpa não é sua.

Não se culpe por julgar grevistas apenas como vagabundos sujos de graxa nem por dizer coisas desdenhosas como “ele é faxineiro porque não quis estudar”, muito menos por ver nos sem-terra e/ou sem-teto uma espécie de ameaça à humanidade (às vezes, eles agem assim mesmo...). Os ideais e propostas socialistas (um tanto radicais para ouvidos contemporâneos) distanciaram-se e muito da formação cultural cotidiana baseada na alienação. Educa-se para não se enxergar além.

As últimas gerações jogaram Super Mario Bros durante infância e juventude. O jogo tornou-se sucesso mundial, um símbolo do poder da indústria capitalista, mesmo fazendo uma alusão a Stálin por meio do personagem Mario, um “herói do povo” cujo objetivo é derrubar o poder autocrático do rei (Koppa). Outro exemplo de “alienação capitalista” são as clássicas animações da Disney: os personagens ou são humildes que sonham com a vida luxuosa dos palácios (Branca de Neve, Cinderela, Aladin) ou são elitistas tristes que ao final se tornam elitistas felizes (Simba, Kiara Ariel, Jasmin).

Além de haver poucas revoluções socialistas, nenhuma saiu como a encomenda. Delas, estabeleceram-se regimes autoritários e violentos. Por falta de apoio (e com certos bloqueios), os Estados revolucionários tornaram-se frágeis e carentes. A antiga URSS e a Cuba atual valem como exemplos de uma teoria improvável, um sonho falho, um mundo restrito e sem opções em que as vontades individuais são mediadas pelo governo. Ao ligar socialismo e comunismo a essas imagens, cessam-se as análises das possibilidades igualitárias e se dá por encerrada a utopia de Marx e Engels.

Esse cerceamento das liberdades individuais ocorrido após as revoluções socialistas (defendido inclusive pela “legítima esquerda nacional”, o Partido da Causa Operária), não condiz com a autonomia conquistada pelo homem no contexto do capitalismo. Ninguém quer ter seu direito de fazer o quê, quando e por quanto quiser, submetido aos interesses da sociedade. As propostas e os exemplos de realizações socialistas apenas sugerem que eles querem virar tudo de pernas para o ar, impressão nada cativante à inteligência de quem é criado na ilusória liberdade individual. É por isso que o socialismo como é (des)conhecido não pode dar certo. O ser humano se acomodou no mundo das desigualdades e, segundo Drummond: “Somos desiguais e queremos ser sempre desiguais”.

No entanto, se todo mundo compra as mesmas marcas, come as mesmas coisas, vai aos mesmos lugares, assiste aos mesmos filmes e gosta das mesmas músicas, há aí uma contradição: como podemos afirmar querermos ser desiguais? Se é preciso manter-se dentro de padrões para condizer com a imagem estilizada, onde estão a autonomia e a liberdade do capitalismo?

Socialistas têm raiva de ricos, capitalistas têm nojo de pobres. Porém, tanto ricos quanto pobres têm horror à classe média e querem ser iguais apenas a ricos. Em outras palavras, o sistema apresenta uma única solução igualitária: se é para haver igualdade, que haja ao nível dos luxos e deslumbres. Por meio das contradições das próprias doutrinas, pode-se constatar: não é o socialismo que é utópico. A igualdade em si é uma senhora utopia.

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