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domingo, 10 de outubro de 2010

Opinião

TIRIRICA AINDA EM FOCO
Depois de tanta polêmica, o melhor é virar a página ou tentar contornar a situação?
por Fábio Congiu
Há algumas semanas, pensávamos: se, no Brasil, predominam campanhas feitas por identificação, Tiririca chamava o povo paulista de palhaço? Segundo suas declarações, não. Simplesmente, “eu falo a língua deles: vote em mim, abestado!” Seu método persuasivo funcionou e, sem propostas ou planos concretos (“De concreto, só cimento”), ele se consagrou Deputado Federal com a maior votação do país: mais de 1,3 milhão de votos.

Muito se tem falado sobre a candidatura e a vitória do humorista: quem vota nele é burro, voto em Tiririca é
voto de protesto, o PR lançou-o como candidato para angariar votos populares, deveriam ter impedido a candidatura dele, sua eleição deve ser invalidada e afins. Não vem ao caso se quem votou nele é “burro” porque não tem acesso a informações e à educação qualificada ou porque pensa que protestar é eleger candidatos escrachadamente despreparados. Interessante é a comprovação de que a apatia de uma grande parcela de brasileiros completamente desconhecedores das responsabilidades democráticas (não por que querem, vale ressaltar) chegou ao ponto de nem mais demonstrar interesse por promessas.

Tiririca não prometeu nada, não se posicionou em relação a nada, não se comprometeu a sério com ninguém – só fez rirem alguns e chorarem outros. Artista que é, investiu numa espécie de vanguarda eleitoral: em vez de disfarçar propostas políticas sem fundamento, assumiu suas asneiras, cantou e dançou e venceu. Outro bom exemplo de inovação pode ser sua resposta ao repórter que lhe perguntou se, caso eleito, iria vestido de Tiririca para a Câmara: “Não, não. De Francisco.” É como evoluir daquelas promoções de “pague um, leve dois” para “vote em um, leve outro”.

Porém, não é a a crise de identidade o foco da questão. Querem provar que Tiririca não sabe ler e, por isso, invalidar sua eleição. Essa capacidade, contudo, faria mesmo diferença em seu mandato? É muito provável que "exerçam” a profissão para ele, então... E quem votou nele provavelmente não se preocupou em pesquisar essas coisas. Talvez o mal já esteja feito, talvez ainda haja esperança (ou, ao menos, esperançosos)...

Pessimismo pode ser uma grande perda de tempo, mas impedir que Tiririca tome posse por não saber ler não seria mais do que aparar folhagens em vez de cortar o mal pela raiz. Embora quaisquer tentativas (por menores que sejam) de buscar melhor qualidade para o exercício democrático no Brasil sejam louváveis, se foi permitido que o personagem se candidatasse e se sua candidatura foi legitimada por tamanha votação, é justo agora invalidar o desejo de tanta gente?

domingo, 3 de outubro de 2010

Opinião

É LULA DE NOVO
Com a força da publicidade, candidatos são eleitos tal qual um achocolatado na prateleira
por Fábio Congiu
Não é arriscado apostar na vitória de Dilma Rousseff no dia 31 de outubro. É claro que o jogo pode virar, mas é inegável a dificuldade. Dizer que Lula manda e desmanda no país é exagero, teoria da conspiração (onde está a CPMF agora, conspiradores?); entretanto, o poder que ele alcançou à custa de imagens/publicidades é no mínimo intrigante. Afinal, seu apadrinhamento elevou em pouco menos de um ano sua candidata do “anonimato” à provável primeira presidente do Brasil.

Quem é Dilma Rousseff? Para alguns veículos da imprensa, uma terrorista; para outros, a candidata mais preparada. Para grande parte da população, uma aproveitadora; para outra grande parte, a mulher do Lula. Ao longo dessas eleições de 2010, muito se discutiu a respeito da ex-ministra-chefe da Casa Civil; todavia, pouco foi concluído. Concluiu-se apenas o fenômeno do popululismo, mistura moderna (cujos pés estão no passado) de marketing e carisma que tem o poder como alvo.

Pouco valeria pregar experiência administrativa, comentar seu empenho na luta contra a ditadura militar, ocultar “problemas” pessoais como divórcio e até mesmo passar por uma metamorfose caso Dilma não pudesse contar com o apoio de Lula aliado a um excepcional trabalho de marketing. E que trabalho! Se em abril de 2010 o Datafolha a apontava com algo em torno de 28% das intenções de voto contra 38% de seu principal oponente, José Serra, ela terminou o grande dia superando-o com 46,71% contra 32,69%.

Diante do horário eleitoreiro, há que se convir: a “mulher do Lula” parece mesmo a mais preparada para “seguir mudando” o país. O poder da publicidade de transformar (literalmente) uma figura desconhecida da população nessa administradora ideal é o mesmo que transformou um ex-metalúrgico no presidente mais popular de nossa História. De 2003 a 2009, mais de 7,7 bilhões de reais foram gastos em publicidade pelo governo Federal a fim de atribuir ao “cara” a conversão das terras tupiniquins num suposto país glorioso, emergente e igualitário.

É esse mesmo poder o responsável pela conversão de corruptos e palhaços em deputados federais, pagodeiros em vereadores (por pouco, em senadores), esposas inexperientes em candidatas ao governo, democracia em circo (dos horrores). Eleger representantes políticos no Brasil é como comprar chocolate em pó: na TV, o produto é chamativo e cativante; em casa, nota-se que tudo era meramente ilustrativo, mas, mesmo assim, ninguém reclama.

Durante a campanha, predominaram os candidatos-achocolatados. Enquanto os coligados de Dilma (inclusive ela) abraçaram a imagem de Lula, os de Serra (inclusive ele) abraçaram a imagem de... Lula. Assim, quase todos ficaram bonitinhos e felizes, mas ideias, debates, planos e soluções ficaram à deriva. Não há nisso, contudo, nenhum desmerecimento: se, neste país, política assumiu o status de comércio, vence quem vende melhor, e vende melhor quem explora imagens em vez de conteúdo (vide a sessão de best-sellers das livrarias ou os programas mais vistos na TV). Portanto, a ascensão de Dilma Rousseff como consequência indubitável da popularidade de Lula, e a ascensão desta, do marketing, confirmam o poder intrigante e perigoso do fenômeno do popululismo, que sentencia um novo slogan: “é Lula de novo com a força da publicidade”. Até quando?

sábado, 18 de setembro de 2010

Opinião

BRASÍLIA DAS FLORES
Uma paródia para se (re)pensar o país em época de eleições

por Fábio Congiu
No centro de um grande país, existe uma cidade planejada por um presidente e por um arquiteto. Presidente é um trabalhador que, assim como jornalistas, não precisa de diploma para exercer sua função; arquitetos são comunistas que projetam obras de luxo para capitalistas. Essa cidade chama-se Brasília.

Seu Augustinho é um trabalhador rural. Como presidentes e jornalistas, não precisa de diploma para exercer sua função de plantar e colher os alimentos que as pessoas consomem. Seu Augustinho trabalha seis dias por semana no sítio onde é empregado na zona rural de Brasília.

Brasília é a capital do Brasil. Brasil é uma coisa engraçada e também um país. Por ser capital da coisa engraçada, é lá que as coisas mais engraçadas acontecem. Um exemplo: quem nasce em Brasília não é brasiliense; é índio, nordestino, caipira, político.

Políticos são pessoas como Seu Augustinho, empregados, só que trabalham três dias por semana, usam terno e gravata e dinheiro público. Dinheiro público é o dinheiro que o povo de um país passa para o governo para que este decida o que fazer com ele. Povo é um conjunto de pessoas que moram em uma mesma porção de terra, falam a mesma língua e riem juntas da desgraça alheia.

O dinheiro público deve ser repassado de forma a atender tanto às necessidades do patrão de Seu Augustinho quanto as de Seu Augustinho. Quem decide como investir esse dinheiro são os empregados do patrão de Seu Augustinho e também de Seu Augustinho – os políticos. Políticos têm em mãos uma grande responsabilidade e nenhuma responsabilidade na cabeça.

No caso do Brasil, que é uma coisa engraçada cuja capital é Brasília onde ficam os políticos – empregados tanto do patrão de Seu Augustinho quanto de Seu Augustinho responsáveis pela administração do dinheiro público –, o povo é a única espécie de patrão que paga para seus empregados um salário superior ao seu, aceita que eles descumpram suas ordens e não os repreende ou demite quando usam ilegalmente o dinheiro da empresa.

Para quem não compreendeu a ideia deste texto, o Youtube disponibiliza de forma gratuita (o que não quer dizer de forma legal) o documentário "Ilha das Flores", de Jorge Furtado, obra na qual se baseia humildemente a opinião aqui publicada. É extremamente aconselhável que se veja: http://www.youtube.com/watch?v=KAzhAXjUG28

domingo, 22 de agosto de 2010

Opinião

Pior não fica?
Palhaçadas políticas: exercício da democracia ou desrespeito ao país?
por Fábio Congiu
Uma professora disse essa semana: “Jornalistas, pensem como povo. Não pensem como vocês.” Segundo ela, isso ajuda a explicar muita coisa como, por exemplo, a popularidade do presidente Lula, o sucesso do sertanejo universitário, o bombardeio de palhaçadas políticas no horário eleitoral gratuito. Não faltam armas cujo intento seja desmoralizar a democracia – Mulher Pera, Ronaldo Esper, Marcelinho Carioca, Maguila, Kiko (do KLB), Caju, Netinho de Paula –, mas confesso que nenhuma delas me comove tanto quanto a candidatura do artista e intelectual brasileiro, Tiririca.

Vamos, pois, forçar a amizade. Digamos que Netinho de Paula (pagodeiro), almejante ao Senado, represente jovens da periferia (“do gueto”, como ele costuma dizer) que ainda precisam e muito de alguém que os alerte quanto aos seus direitos; Caju (parceiro de Castanha, com quem faz repentes), vá lá: há inúmeros nordestinos espalhados pela metrópole e é interessante que se eleja alguém com vivência parecida. Entretanto, candidato a Deputado Federal pelo PR (Partido da República), Tiririca representa quem? Os coloridos da modinha atual? Penso que não; logo, prossigo.


“Sabe o que faz um Deputado Federal? Na realidade, eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto.” Enquanto seus concorrentes midiáticos apresentam discursos aparentemente sérios (inclusive Maguila, com a ajuda de legendas, é claro), Tiririca assume sua ignorância política, zomba de seus eleitores, afirmando que lhes contará os deveres políticos se eleito, e ainda é capaz de mostrar descaradamente total desinteresse pelo melhor exercício da democracia brasileira: “Vote no Tiririca; pior do que está não fica.” Votar nele já significa que as coisas podem piorar.


Se tudo é tão escrachado e desmotivador (em contraponto à política tradicional das boas impressões e promessas) e se toda candidatura tem um público-alvo, logo, quem são os eleitores que Tiririca procura? A autora da frase citada no princípio do texto referia-se à identificação: vota-se em Lula porque ele fala errado e é assim que fala a grande maioria da população brasileira. Que seja. Coloquemos, contudo, essa visão sobre a candidatura de Tiririca: o povo brasileiro, por acaso, é palhaço (no sentido de ridículo, de desimportante, de só fazer tolices)?


Cabe ao leitor procurar esta resposta – os tempos avançam, as coisas evoluem, mas a concepção de povo talvez permaneça carente de aprofundamento. O que se pode constatar é que a candidatura em questão não representa um exercício de democracia, mas sim, um desrespeito a um país que, justamente por ser tão jovem no contexto democrático, merece, ao menos, melhor orientação e fiscalização mais séria no campo político.

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